Tipos de narrador

Igor Alves
Revisão por Igor Alves
Professor de Língua Portuguesa

Existem basicamente três tipos de narrador:

  • Narrador personagem: participa da história como protagonista. Narra em primeira pessoa.
  • Narrador onisciente: sabe absolutamente tudo sobre a história as personagens. Narra em terceira pessoa.
  • Narrador observador: não participa da história. Narra apenas o que vê, em terceira pessoa.

O narrador é quem conta a história (narrativa). Trata-se de uma entidade fictícia (diferente do autor) que apresenta a história ao leitor.

A história é contada pelo narrador a partir do seu ponto de vista, que pode ser o de uma personagem (primeira pessoa), de um observador (terceira pessoa) ou de um ser onisciente (terceira pessoa). A essa perspectiva do narrador chamamos foco narrativo.

Narrador personagem

O narrador personagem está presente na história como personagem e narra os acontecimentos em primeira pessoa. Ele, portanto, participa da ação e seu conhecimento das coisas se limita ao que vê e sabe sobre os outros personagens.

A crônica é um exemplo de texto narrativo em que geralmente quem conta a história é um narrador personagem.

Em muitos casos, o narrador é o protagonista (personagem principal), recebendo o nome de narrador autodiegético.

É o que acontece na crônica Meu reino por um pente, de Paulo Mendes Campos:

Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você – segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos 'Suspiros Poéticos e Saudades'. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?” Estão todos de acordo.

Narrador testemunha

O narrador personagem que participa da história, mas como personagem secundário, recebe o nome de narrador testemunha ou homodiegético.

Esse tipo de narrador, embora seja personagem da narrativa, não está no centro dos acontecimentos e se dedica a narrar principalmente as ações do protagonista. Por isso, seu conhecimento dos fatos é limitado ao que vê, ouve ou toma conhecimento. Ele também pode especular sobre o que outros personagens estão pensando. Pode narrar em primeira e em terceira pessoa.

É o caso das histórias do detetive Sherlock Holmes, narradas por seu assistente, o Dr. Watson:

Um dos defeitos de Sherlock Holmes — se é que podemos de fato chamá-lo de defeito — era sua extrema relutância em comunicar a totalidade de seus planos a qualquer outra pessoa até o instante de executá-los. Isso vinha em parte, sem dúvida, de sua natureza autoritária, que gostava de dominar e surpreender os que o cercavam. Em parte, também, de sua prudência profissional, que o impelia a nunca correr quaisquer riscos. O resultado, contudo, era exasperante para aqueles que atuavam como seus agentes e assistentes. Muitas vezes sofri com isso, porém nunca tanto quanto durante aquela longa viagem de trole na escuridão. A grande provação estava diante de nós; finalmente estávamos prestes a fazer nosso esforço final, mas Holmes não dizia nada, e eu podia apenas conjecturar como se desdobraria sua ação. Meus nervos latejavam de ansiedade quando por fim o vento frio em nossos rostos e os espaços escuros e vazios dos dois lados da estrada estreita me fizeram saber que estávamos de volta à charneca novamente. Cada passo dos cavalos e cada giro das rodas nos levava para mais perto de nossa suprema aventura.

Trecho do romance 'O Cão dos Baskerville', de Arthur Conan Doyle.

Narrador onisciente

Narrador onisciente é um narrador em terceira pessoa que, como o próprio nome indica, sabe tudo sobre a história que conta, o passado e o futuro, o visível e o invisível, inclusive o que se passa na subjetividade das personagens, seus pensamentos e emoções mais profundas.

Narrador onisciente intruso

O narrador onisciente intruso ou seletivo não participa da história como personagem.

Ele usa geralmente a terceira pessoa e tem conhecimento ilimitado do que se passa na história. Sabe, inclusive, o que se passa na mente dos personagens, seus pensamentos e estados psicológicos.

O que caracteriza esse tipo de narrador é a liberdade de tecer comentários ou fazer críticas sobre aspectos da narrativa (digressões).

É o caso, por exemplo, do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, em que o narrador faz uma pausa para comentar os acontecimentos:

Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sofia e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado. Tende paciência; é vir agora outra vez a Santa Tereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gás; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado esperasse um pouco lá dentro. A mulher ia sair, o marido deteve-a, ela estremeceu.

Narrador onisciente neutro

Assim como o narrador onisciente intruso, o narrador onisciente neutro não participa da história como personagem e tem conhecimento ilimitado sobre as personagens.

Porém, diferentemente do narrador intruso, o narrador onisciente neutro não intervém com comentários sobre o que as personagens fazem ou pensam. Não busca, portanto, influenciar a opinião do leitor sobre elas.

É o que se percebe no seguinte trecho do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz:

Aqueles livros — uns cem, no máximo — eram velhos companheiros que ela escolhia ao acaso, para lhes saborear um pedaço aqui, outro além, no decorrer da noite.
Deitou-se vestida, desapertando a roupa para estar à vontade.
Pegou no primeiro livro que a mão alcançou, fez um monte de travesseiros ao canto da cama, perto da luz, e, fincando o cotovelo neles, abriu à toa o volume.
Era uma velha história polaca, um romance de Sienkiewicz, contando casos de heroísmos, rebeliões e guerrilhas.
Conceição o folheou devagar, relendo trechos conhecidos, cenas amorosas, duelos, episódios de campanha. Largou-o, tomou os outros — um volume de versos, um romance francês de Coulevain.
E ao repô-los na mesa, lastimava-se:
— Está muito pobre essa estante! Já sei quase tudo decorado!

Narrador observador

O narrador observador não participa da história, narrando-a de fora, como observador, em terceira pessoa. Costuma relatar os fatos objetiva e imparcialmente. Conta, deste modo, apenas o que vê.

É o tipo de narrador mais comum nas obras literárias clássicas, como no seguinte trecho retirado do romance Miguel Strogoff, de Júlio Verne:

Aos quatorze anos, Miguel Strogoff, que desde os onze acompanhava o pai nas frequentes incursões pela estepe, matara seu primeiro urso. A vida na estepe dera-lhe uma força e resistência incomuns e o rapaz podia passar vinte e quatro horas sem comer e dez noites sem dormir, sem aparentar excessivo desgaste físico, conseguindo sobreviver onde outros em pouco tempo morreriam. Era capaz de guiar-se em plena noite polar, pois o pai lhe ensinara os segredos da orientação – valendo-se de sinais quase imperceptíveis na neve e nas árvores, no vento e no voo dos pássaros.”

Bibliografia:

  • CÂNDIDO, Antônio. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1998.
  • REIS, Carlos; LOPES, Ana C. M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988.
  • TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2006.

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Igor Alves
Revisão por Igor Alves
Licenciado em Letras - Habilitação em Português pela Universidade federal do Pará (UFPA)