Tipos de narrador

Existem basicamente quatro tipos de narrador:

  • Narrador personagem: participa da história como protagonista. Narra em primeira pessoa.
  • Narrador testemunha: participa da história como personagem secundário. Narra em primeira e terceira pessoas.
  • Narrador onisciente intruso: é um narrador observador que não participa da história e tem conhecimento ilimitado sobre o que ocorre no íntimo dos personagens, fazendo comentários e críticas. Narra usando a terceira pessoa.
  • Narrador onisciente neutro: é um tipo de narrador observador, porém adota uma postura mais objetiva e neutra. Narra usando a terceira pessoa.

O narrador é quem conta a história (narrativa). Trata-se de uma entidade fictícia (diferente do autor) que apresenta a história ao leitor a partir do seu ponto de vista (foco narrativo).

Narrador personagem

O narrador personagem está presente na história como personagem e narra os acontecimentos em primeira pessoa. Ele, portanto, participa da ação e seu conhecimento das coisas se limita àquilo que vê e sabe sobre os outros personagens.

A crônica é um exemplo de texto narrativo em que geralmente quem conta a história é um narrador personagem. Em muitos casos, o narrador é o protagonista (personagem principal), recebendo o nome de narrador autodiegético. É o que acontece na crônica “Meu reino por um pente”, de Paulo Mendes Campos:

Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você – segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?” Estão todos de acordo.

Trecho da crônica “Meu reino por um pente”, de Paulo Mendes Campos

Narrador testemunha

Se o narrador participa da história, mas como personagem secundário, recebe o nome de narrador testemunha ou homodiegético.

Esse tipo de narrador, embora seja personagem da narrativa, não está no centro dos acontecimentos e se dedica a narrar principalmente as ações do protagonista. Por isso, seu conhecimento dos fatos é limitado àquilo que vê, ouve ou toma conhecimento. Ele também pode especular sobre o que outros personagens estão pensando. Pode narrar em primeira e em terceira pessoa.

É o caso das histórias do detetive Sherlock Holmes, narradas por seu assistente, o Dr. Watson:

Um dos defeitos de Sherlock Holmes — se é que podemos de fato chamá-lo de defeito — era sua extrema relutância em comunicar a totalidade de seus planos a qualquer outra pessoa até o instante de executá-los. Isso vinha em parte, sem dúvida, de sua natureza autoritária, que gostava de dominar e surpreender os que o cercavam. Em parte, também, de sua prudência profissional, que o impelia a nunca correr quaisquer riscos. O resultado, contudo, era exasperante para aqueles que atuavam como seus agentes e assistentes. Muitas vezes sofri com isso, porém nunca tanto quanto durante aquela longa viagem de trole na escuridão. A grande provação estava diante de nós; finalmente estávamos prestes a fazer nosso esforço final, mas Holmes não dizia nada, e eu podia apenas conjecturar como se desdobraria sua ação. Meus nervos latejavam de ansiedade quando por fim o vento frio em nossos rostos e os espaços escuros e vazios dos dois lados da estrada estreita me fizeram saber que estávamos de volta à charneca novamente. Cada passo dos cavalos e cada giro das rodas nos levava para mais perto de nossa suprema aventura.

Trecho do romance O Cão dos Baskerville, de Arthur Conan Doyle

Veja o Significado de Coadjuvante.

Narrador onisciente intruso

O narrador onisciente intruso é um narrador observador – ou seja, não participa da história como personagem. Ele usa geralmente a terceira pessoa e tem conhecimento ilimitado do que se passa na história, inclusive na mente dos personagens, seus pensamentos e estados psicológicos.

O que caracteriza esse tipo de narrador é a liberdade de tecer comentários ou fazer críticas sobre aspectos da narrativa (digressões). É o caso, por exemplo, do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, em que o narrador faz uma pausa para comentar os acontecimentos:

Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sofia e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado. Tende paciência; é vir agora outra vez a Santa Tereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gás; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado esperasse um pouco lá dentro. A mulher ia sair, o marido deteve-a, ela estremeceu.

Trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis

Narrador onisciente neutro

O narrador onisciente neutro é um narrador observador – isto é, não participa da história como personagem e tem conhecimento ilimitado sobre os personagens. Com esse tipo de narrador, nós, leitores, sabemos tudo o que se passa na cabeça dos personagens.

Porém, diferentemente do narrador intruso, o narrador onisciente neutro não intervém com comentários (digressões) sobre o que os personagens pensam.

Aqueles livros — uns cem, no máximo — eram velhos companheiros que ela escolhia ao acaso, para lhes saborear um pedaço aqui, outro além, no decorrer da noite.
Deitou-se vestida, desapertando a roupa para estar à vontade.
Pegou no primeiro livro que a mão alcançou, fez um monte de travesseiros ao canto da cama, perto da luz, e, fincando o cotovelo neles, abriu à toa o volume.
Era uma velha história polaca, um romance de Sienkiewicz, contando casos de heroísmos, rebeliões e guerrilhas.
Conceição o folheou devagar, relendo trechos conhecidos, cenas amorosas, duelos, episódios de campanha. Largou-o, tomou os outros — um volume de versos, um romance francês de Coulevain.
E ao repô-los na mesa, lastimava-se:
— Está muito pobre essa estante! Já sei quase tudo decorado!

Trecho do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz

Veja também:

Data de atualização: 04/11/2020.